Comte, cujo nome completo era
Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, nasceu em 19 de janeiro de
1798, em Montpellier, e faleceu em 5 de setembro de 1857, em Paris.
Filósofo e auto-proclamado líder religioso, deu à ciência da Sociologia
seu nome e estabeleceu a nova disciplina em uma forma
sistemática.
Foi aluno da célebre École Polytechnique, uma
escola em Paris fundada em 1794 onde se ensinava a ciência e o
pensamento mais avançados da época. De família pobre, sustentou seus
estudos com o ensino ocasional da matemática e oportunidades no
jornalismo.
Um de seus primeiros empregos foi o de secretário do
Conde Henri de Saint-Simon, o primeiro filósofo a ver claramente a
importância da organização econômica na sociedade moderna, e cujas
idéias Comte absorveu, sistematizou com um estilo pessoal e
difundiu.
Comte foi apresentado ao filósofo, então diretor do
periódico Industrie, no verão de 1817. Saint-Simon, um homem de
fértil, mas tumultuada e desordenada criatividade, então quase sessenta
anos mais velho que Comte, foi atraído pelo jovem brilhante que possuiu
a capacidade treinada e metódica para o trabalho que lhe faltava. Comte
tornou-se seu secretário e colaborador próximo, na preparação de seus
últimos trabalhos. Quando Saint-Simon experimentou problemas
financeiros, Comte permaneceu sem pagamento tanto por razões
intelectuais como pela esperanças da recompensa futura.
Os
esboços e os ensaios que Comte escreveu durante os anos da associação
próxima com Saint-Simon, especialmente entre 1819 e 1824, mostram
inequivocamente a influência do mestre. Esses primeiros trabalhos já
contêm o núcleo de todas suas idéias principais, mesmo as mais
tardias. Em 1824 Comte desentendeu-se com Saint-Simon por questões de
autoria legítima de ensaios que Comte devia publicar. A solução, que
Comte considerou injusta, foi que cem cópias do trabalho saíram sob o
nome de Comte, enquanto mil cópias, intituladas Catechisme des
industriels indicavam a autoria de Henri de Saint-Simon. Outra causa
do rompimento foi, ironicamente, Comte desdenhar a idéia de um paradigma
religioso no projeto de Saint Simon, ele, Comte, que depois haveria de
adotar essa idéia proclamando a si mesmo como sumo sacerdote da
Humanidade. Em fevereiro 1825 Comte se casou com Caroline Massin,
proprietária de uma pequena livraria, uma moça que ele já conhecia a
alguns. Comte a achava forte e inteligente, mas depois taxou-a de
ambiciosa e desprovida de afetividade. O casamento foi sempre tumultuado
por motivos financeiros, uma vez que Comte não conseguia uma posição com
salário fixo e contava apenas com os rendimentos das aulas particulares
e alguma renda adicional por colaborações a jornais, mais freqüentemente
para o Producteur, um jornal fundado pelos filhos espirituais de
Saint-Simon após a morte do mestre.
Depois de se afastar de Saint
Simon, a principal preocupação de Comte tornou-se a elaboração de sua
filosofia positiva. Não tendo nenhuma cadeira oficial da qual expor suas
teorias, decidiu oferecer um curso particular que os interessados
subscreveriam adiantado, e onde divulgaria sua Summa do conhecimento
positivo. O curso abriu em abril, 1826, com a presença de alguns
curiosos ilustres como Alexander von Humboldt, diversos membros da
academia das ciências, o economista Charles Dunoyer, o duque Napoleon de
Montebello, e Hippolyte Carnot, filho do organizador dos exércitos
revolucionários e irmão do cientista Sadi Carnot, e vários estudantes da
Ecole Polytechnique. Comte deu apenas três aulas e foi
obrigado a interromper o curso devido a um colapso nervoso. Seu mal foi
diagnosticado como " mania " no hospital do famoso Dr. Esquirol, autor
de um tratado sobre a doença. Ele próprio submeteu Comte a um tratamento
com banhos de água fria e sangrias. Apesar de não receber alta, Comte
foi levado para casa por Caroline
Após o retorno para casa, Comte
caiu em um estado melancólico profundo, e tentou mesmo o suicide
jogando-se no rio Sena. Somente em agosto 1828 logrou sair de sua
letargia. O curso das conferências foi recomeçado em 1829, e Comte ficou
satisfeito outra vez por encontrar na audiência diversos nomes de
grandes das ciências e das letras.
Durante os anos 1830-1842,
quando escreveu sua obra prima, Cours de philosophie positive,
Comte continuou a viver miseravelmente na margem do mundo acadêmico.
Todas as tentativas de ser apontado de para uma cadeira no Ecole
Polytechnique ou para uma posição na Academia das ciências ou na
faculdade de França foram infrutíferas. Controlou somente em 1832 a ser
apontado assistente de "analyse et de mecanique " no Ecole; cinco anos
mais tarde foi dado também as posições do examinador externo para a
mesma escola. A primeira posição trouxe valiosos dois mil francos e o
segundo um pouco mais. Mas era pouco para as despesas que tinha com a
esposa e por isso continuou com as aulas particulares para escapar da
faixa de pobreza.
Durante os anos da concentração intensa quando
escreveu o Cours, Comte foi incomodado não somente por
dificuldades financeiras e as frustradas tentativas de emprego
acadêmico. Também sofreu críticas do mundo científico por parte de
importantes figuras que o ridicularizavam pela sua pretensão de submeter
ao seu sistema todas as ciências. A mágoa agravou seu estado
psicológico. Por razões "de higiene cerebral", decidiu-se, em 1838, a
não ler mais uma linha de qualquer trabalho científico, limitando-se à
leitura de ficção e poesia. Em seus últimos anos o único livro que
haveria de ler repetidamente seria o "Imitação de Cristo". Sua vida
matrimonial, que sempre fora tempestuosa, também se desfez.. Comte teve
várias separações de Caroline, que não suportava os seus fracassos e
terminou por deixá-lo definitivamente em 1842.
Só e isolado,
continuou a atacar os cientistas que se recusaram a reconhecê-lo.
Queixou-se de seus inimigos aos ministros do Rei, escreveu cartas
delirantes à imprensa e atormentou a paciência de seus poucos restantes
amigos. Criando demasiado inimigos na Ecole Polytechnique, sua
nomeação como o examinador não foi renovada em 1844. Perdeu com isto a
metade de sua renda. (iria perder também a posição de assistente na
Ecole em 1851.)
Contudo apesar de todos estas adversidades, Comte
começou lentamente a adquirir discípulos. E mais importante para ele foi
que, além de encontrar alguns discípulos franceses notáveis, tais como o
eminente intelectual Emile Littre, era o fato de que sua doutrina
positiva havia atravessado o Canal e recebera considerável atenção na
Inglaterra. David Brewster, um físico eminente, saudou-o nas páginas do
Edinburgh Review em 1838 e, o mais gratificante de tudo, John
Stuart Mill transformou-se em seu admirador, citando-o em seu System
of Logic (1843) como um dos principais pensadores europeus. Comte e
Mill se corresponderam regularmente, e serviu a Comte não somente para
refinar seus pensamentos como também para desabafar com o filósofo
inglês as tribulações de sua vida conjugal e as dificuldades de sua
existência material. Mill arrecadou entre admiradores britânicos de
Comte uma soma considerável em dinheiro e lhe enviou como socorro para
suas dificuldades financeiras. No mesmo ano de 1844, Comte
con heceu Clotilde de Vaux, por quem se apaixonou. Ela era uma mulher
de trinta anos abandonada pelo marido, um funcionário público do baixo
escalão, que havia fugido do país depois de se apropriar de fundos do
governo. Um irmão de Clotilde que havia sido aluno de Comte na Escola
Politécnica, e o convidou a ir à casa de seus pais, onde lhe apresentou
a irmã.
Comte ficou inteiramente seduzido por ela. Sua paixão
tem, porém, um desdobramento inusitado. Clotilde está impedida pela lei
de casar-se achando-se o seu marido foragido. Auguste Comte tinha
então quarenta e sete anos, e havia se separado três anos antes de sua
mulher. Acabara de concluir seu monumental Cours de philosophie
positive, e se preparava para escrever o que pretendia que seria sua
principal obra, o Système de politique positive. da qual ele
considerava o Cours de philosophie como apenas uma introdução.
Entusiasmado com a própria paixão, Auguste Comte afirma que nada pode
ser mais eficaz para o bem pensar que o bem querer, e se torna um
abrasado feminista. Afirma que a mulher encarna o sentimento e portanto,
em última análise, a própria Humanidade. Busca então seriamente associar
o sexo feminino, na pessoa de Clotilde, à obra de renovação social e
moral que se impôs completar. Clotilde tenta colaborar, através de um
romance filosófico, Wilhelmine, que ela se põe febrilmente a escrever.
Mas adoece de tuberculose e vem a falecer em 1846.
Comte irá
devotar o resto de sua vida à memória do "seu anjo". O Système de
politique positive, que tinha começado a esboçar em 1844 e no qual
completou sua formulação da sociologia., iria transformar-se em um
memorial a sua amada. Cinco anos mais tarde, em 1851, ao publicar essa
obra, dedicou-a a Clotilde, dizendo esperar que a humanidade,
reconhecida, haveria de lembrar sempre seu nome junto ao dela.
No
Système de politique positive, Comte, voltando-se contra a
doutrina do mestre Saint-Simon, defendeu a primazia da emoção sobre o
intelecto, do sentimento sobre a racionalidade; e proclamou
repetidamente o poder curativo do calor feminino para a humanidade
dominada por tempo demasiado pela aspereza do intelecto masculino. Por
outro lado, maquiou a proposta de disciplina eclesiástica de Saint-Simon
criando a Religião da Humanidade.
Quando o Système
apareceu entre 1851 e 1854, Comte escandalizou e perdeu a maioria dos
seguidores racionalistas que ele havia conquistado com tanta dificuldade
nos últimos quinze anos. John Stuart Mill e Emile Littre não aceitaram
que o amor universal fosse a solução para todas as dificuldades da
época. Tão pouco aceitariam a Religião da Humanidade da qual Comte se
proclamou agora o sumo sacerdote. A observação dos rituais múltiplos
segundo o calendário anual, os detalhes da elaborada liturgia indicavam
que o antigo profeta do estágio positivo havia regressado às trevas do
estágio teológico. Comte passou a assinar suas circulares - aos novos
discípulos que conseguiu reunir - como "fundador da religião universal e
sumo sacerdote da humanidade". Tentou converter o Superior Geral dos
Jesuítas à nova fé e comparou suas circulares aos discípulos com as
epístolas de São Paulo. Fundou a Societé Positiviste, que se
transformou no centro principal de seu ensino. Os membros se cotizaram
para assegurar a subsistência do mestre e fizeram os votos de espalhar
sua mensagem. As missões se instalaram, na Espanha, Inglaterra, Estados
Unidos, e na Holanda. Cada noite, das sete às nove, exceto nas
quartas-feiras quando a Societé Positiviste tinha sua reunião
regular, Comte recebia seus discípulos em sua casa em Paris: políticos,
intelectuais e operários, que lhe votavam grande respeito e veneração.
Comte estava longe do entusiasmo republicano e libertário de sua
juventude. O moto da Igreja Positiva era amor, ordem e progresso O jovem
estudante de passeata agora pregava as virtudes do amor, da submissão e
a necessidade da ordem para o progresso social.
Em 1857, Comte,
após alguns meses de enfermidade, faleceu a cinco de setembro. Um grupo
pequeno de discípulos, de amigos, e de vizinhos seguiu seu esquife ao
cemitério de Pere Lachaise. Seu túmulo transformou-se no centro de um
pequeno cemitério positivista onde estão sepultados, perto do mestre,
seus discípulos mais fiéis.
Pensamento. A contribuição principal de Comte à filosofia do positivismo foi
sua adoção do método científico como base para a organização política da
sociedade industrial moderna, de modo mais rigoroso que na abordagem de
Saint Simon. Em sua Lei dos três estados ou estágios do desenvolvimento
intelectual, Comte teoriza que o desenvolvimento intelectual humano
havia passado historicamente primeiro por um estágio teológico, em que o
mundo e a humanidade foram explicados nos termos dos deuses e dos
espíritos; depois através de um estágio metafísico transitório, em que
as explanações estavam nos termos das essências, de causas finais, e de
outras abstrações; e finalmente para o estágio positivo moderno. Este
último estágio se distinguia por uma consciência das limitações do
conhecimento humano. As explanações absolutas consequentemente foram
abandonadas, buscando-se a descoberta das leis baseadas nas relações
sensíveis observáveis entre os fenômenos naturais.
Comte tentou
também uma classificação das ciências; baseada na hipótese que as
ciências tinham desenvolvido da compreensão de princípios simples e
abstratos à compreensão de fenômenos complexos e concretos. Assim as
ciências haviam se desenvolvido a partir da matemática, da astronomia,
da física, e da química para a biologia e finalmente a sociologia. De
acordo com Comte, esta última disciplina não somente fechava a série mas
também reduziria fatos sociais as leis científicas e sintetizaria todo o
conhecimento humano.
Embora Comte não fosse dele o conceito de
sociologia ou da sua área de estudo, ele ampliou seu campo e
sistematizou seu conteúdo. Dividiu a Sociologia em dois campos
principais: Estática social, ou o estudo das forças que mantêm unida a
sociedade; e Dinâmica social, ou o estudo das causas das mudanças
sociais.
Dando nova roupagem às idéias de Hobbes e Adam Smith,
afirmou que os princípios subjacentes da sociedade são o egoísmo
individual, que é incentivado pela divisão de trabalho, e a coesão
social se mantém por meio de um governo e um estado fortes.
Como
Saint Simon, queria a administração real do governo e da economia nas
mãos dos homens de negócios e dos banqueiros, porém dá um toque pessoal
seu, com origem em sua paixão por Clotilde, dizendo que a manutenção da
moralidade privada seria competência das mulheres como esposas e
mães.
Dando ênfase a hierarquia e obediência, rejeitou a
democracia, sustentando que o governo ideal seria constituído por uma
elite intelectual. Seu conceito de uma sociedade positiva está no seu
Système de politique positive ("Sistema de Política
Positiva").
Como Saint-Simon, ele veio a adotar a idéia de que a
organização da igreja católica romana, divorciada da teologia cristã,
podia fornecer um modelo estrutural e simbólico para a sociedade nova,
idéia que, no entanto, fora uma das causas alegadas para seu rompimento
com o mestre. Comte substituiu a adoração a Deus por uma "religião da
humanidade"; um sacerdócio espiritual de sociólogos seculares guiaria a
sociedade e controlaria a instrução e a moralidade pública. Comte
viveu para ver sua obra comentada extensamente em toda a Europa. Muitos
intelectuais ingleses foram influenciados por ele, e traduziram e
promulgaram seu trabalho. Seus devotos franceses tinham aumentado
também, e mantinha uma correspondência volumosa com sociedades
positivistas em todo o mundo.
A Habilidade particular de Comte
era como um sintetizador das correntes intelectuais as mais diversas.
Tomou idéias principalmente dos filósofos modernos do século XVIII. De
Saint-Simon e outros reformadores franceses menores Comte tomou a noção
de uma estrutura hipotética para a organização social que imitaria a
hierarquia e a disciplina existente na igreja católica romana. De vários
filósofos do Iluminismo adotou a noção do progresso histórico e
particularmente de David Hume e Immanuel Kant tomou sua concepção de
positivismo, ou seja, a teoria de que o Teologia e a Metafísica são
modalidades primárias imperfeitas do conhecimento e que o conhecimento
positivo é baseado em fenômenos naturais e suas propriedades e relações
como verificado pelas ciências empíricas, tese Kantiana por
excelência..
O mais importante realmente provem de Saint-Simon,
que havia enfatizado originalmente a importância crescente da ciência
moderna e o potencial da aplicação de métodos científicos ao estudo e à
melhoria da sociedade.
De Saint-Simon é originalmente a idéia de
que a finalidade da análise científica nova da sociedade deve ser
amelhorativa e que o resultado final de toda a inovação e sistematização
na nova ciência deve ser a orientação do planeamento social. Comte
também pensou que era necessário implantar uma ordem espiritual nova e
secularizada a fim de suplantar o sobrenaturalismo ultrapassado da
teologia cristã.
Comte segue Saint-Simon quando considera a
necessidade de uma ciência social básica e unificadora que explicasse as
organizações sociais existentes e guiasse o planeamento social para um
futuro melhor. Na sua hábil sistematização Comte chamou esta nova
ciência "Sociologia", pela primeira vez.
Porém vai temerariamente
mais adiante que seu mestre quando afirma que os fenômenos sociais
poderiam ser reduzidos a leis da mesma maneira que as órbitas dos corpos
celestes haviam sido explicadas pela teoria gravitacional quase
trezentos anos antes.
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